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Fortaleza, Ceará, Brazil
Nascida em Fortaleza, no Ceará, licenciada em História, a autora, Cristina Aguiar, escreve desde criança. Suas primeiras tentativas consistiam em tentar recriar diálogos de filmes que gostava. Depois, passou a criar histórias próprias tentando dar continuidade a esses filmes. Aos dezessete anos já se aventurava a fazer esboços na procura de uma história ideal. Acumulou vários cadernos com fragmentos de textos que nunca foram para frente. Viajantes foi o primeiro livro que conseguiu terminar, mas acabou encostando-o na gaveta, apesar da opinião favorável daqueles que o leram. Aconteceu o mesmo com A Tenda Peregrina, um romance juvenil sobre um grupo de jovens arqueólogos que parte em busca de um artefato bíblico. Quanto ao livro A Profecia de Hedhen, foi um sonho realizado. Ele é a soma de várias experiências que deram certo e o início de uma saga cujo terceiro volume já está sendo escrito.

sábado, 16 de novembro de 2013

Book Tour



    O book tour seguirá as mesmas regras do anterior:
1. De 15 a 20 dias para ler e fazer a resenha;
2. Avisar com antecedência se houver algum imprevisto;
3. Tomar cuidado ao manejar o livro para que este chegue em boas condições aos participantes seguintes;
4. Caso tenha que se retirar no meio do book tour, avisar por e-mail ou mensagem no facebook;
5. Seguir este blog e curtir a fanpage do livro;
6. As inscrições serão feitas direto comigo, pelo facebook;
7. Ter compromisso e seriedade;
8. O livro será sorteado entre os participantes no final do book tour;
9. Terá início com no mínimo 7 blogs inscritos;

terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Tenda Peregrina - Capítulo 1




CAPÍTULO 1
O Zigurate de Ur

            Com um golpe da picareta a parede foi abaixo, levantando no ar uma nuvem de poeira. Oto Klein, professor de arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, liderava a pequena expedição ao Zigurate de Ur, composta de dois sobrinhos: Sam, um rapaz de 20 anos, de cabelos castanhos e olhos azuis e Mila, uma moça de 19, com cabelos loiros e cujos olhos pareciam mais claros do que os do irmão; Eliahu, um guia nativo da região, rapaz de aparência árabe, apesar de ser judeu, e dois velhos amigos de pesquisa que trabalhavam no Museu de Israel, famoso por abrigar os famosos Manuscritos do Mar Morto.
A abertura na parede sul, mostrava uma porta simetricamente perfeita, criada por um hábil artesão. Oto sorriu. Ele era um homem na casa dos quarenta, mas tinha o corpo de um atleta e a vitalidade de um adolescente.
― Achamos a abertura - ele parecia eufórico. ―Alguém ainda tem dúvidas?
Avram, um dos amigos, homem magro e calvo, falou após um acesso de tosse.
― Muito bem, Oto. Tiro o meu chapéu para você. O que há lá dentro?
― Eu não sei, meu amigo - ele respondeu, olhando para Sam com uma piscadela. - Mas lembre-se de que, na arqueologia, cacos de barro valem ouro. Vamos entrar!
Oto havia revelado aos sobrinhos o que esperava encontrar, mas não confiava tanto assim naqueles homens para dividir o segredo com eles. Infelizmente, ele não estava em condições de refutar um pedido do museu, principalmente quando estava prestes a descobrir algo grande. Eliahu, o jovem guia, olhou desconfiado para o túnel escuro.
― Eu não conheço o caminho por dentro das pedras, apenas por fora delas. Ficarei aqui com os cavalos, se não forem precisar de mim.
O professor sorriu e pousou a mão com força no ombro do rapaz.
― Muito bem, Eliahu. Reconheço que o amor pela descoberta não faz parte de você, meu jovem amigo. – Ele olhou em volta. ―Alguém mais quer ficar?
Ninguém respondeu e eles entraram, seguindo a luz da lanterna do professor.

Oto estava seguindo o diário perdido de seu avô. Este dizia ter encontrado uma porta de acesso ao interior do Tell-All-Mukhayar, conhecido como o “Zigurate de Ur”, e que dentro dele haveria uma pista para levá-los a um tesouro inimaginável. Seguindo instruções minunciosas contidas no diário, ele havia chegado ali e descoberto a porta. Avram e Bemji se autoconvidaram ao serem informados sobre a descoberta, pois sabiam que devido ao sistema de parcerias, as expedições da Universidade deveriam levar consigo representantes do Museu. Sam e Mila acompanhavam o tio, pelo fato de compartilharem do amor pela arqueologia, herdado da família. Ambos estavam cursando a faculdade e aquilo serviria como estágio. Desde o início, eles observavam os dois representantes com desconfiança. As atitudes deles não condiziam com a frieza científica habitual de profissionais daquela área. Eles pareciam nervosos e ansiosos.
Na medida em que adentravam pelo túnel, iam percebendo sua extensão. Era um túnel estreito, mas fora cavado com precisão no passado, tornando-se uma passagem fácil de ser explorada. Após um tempo que para eles pareceu muito grande, devido à ansiedade, chegaram a uma bifurcação. Houve um silêncio constrangedor e uma troca de olhares. E agora? Que caminho eles deveriam tomar?
― O diário fala alguma coisa sobre isso, Oto? – A pergunta veio do gordo e suarento Bemji.
― Não. – Oto coçou o queixo, pensativo. ― No entanto, não acredito que meu avô tenha esquecido de mencionar um detalhe tão importante.
Sob a luz da lanterna, Sam distinguiu uma marca na parede. Ele era um rapaz inquieto, por isso, enquanto os outros pensavam, sua mão direcionava o foco de luz pelas paredes a sua volta.
― Tio, veja isso aqui! - Disse Sam, abrindo caminho até a inscrição.
Era uma seta! Apontava para o lado esquerdo e tinha as letras OK em cima dela. Ao lado, pintado com tinta preta, havia a figura de um menorah, o candelabro de sete braços, um dos principais símbolos judaicos, ligado ao Tabernáculo e posteriormente ao Templo judeu.
― Ok? “Tudo bem”? – Avram parecia confuso.
― Não. São as iniciais de Oto Klein, meu bisavô. – Respondeu Mila – Era assim que ele costumava assinar seus livros. Sei disso porque usei muitos deles para pesquisas.
Avram não gostava de mulheres dadas a inteligentes e franziu o nariz com a informação de Mila, num gesto de desagrado.
― Ele está apontando o caminho para nós. – Oto sussurrou com emoção. – Vamos prosseguir na direção apontada pela seta.
― E quanto ao símbolo do candelabro? – Perguntou Bemji. – Pelo que me recordo era uma peça do tabernáculo feita completamente de ouro!
Tio e sobrinhos trocaram olhares.
― Não sei o que pode significar para nós, Bemji, mas sugiro que continuemos a busca.

Do alto de um pequeno tell, colina artificial criada pela contínua ocupação humana naquele local, montada em um cavalo em meio as ruínas da antiga Ur, uma moça observava o movimento no Zigurate. Dinah Rubin trabalhava para o projeto cultural do Museu Britânico, destinado a preservar os sítios arqueológicos do Iraque, frequentemente vítimas de bombardeios e, naquele momento, ela fazia o patrulhamento pelos sítios arqueológicos da região. Orfã de pai e mãe, criada para ser independente, ela fez do trabalho sua vida, e buscava exercê-lo da melhor forma que pudesse. Como tudo parecia calmo, ela resolveu ficar por ali, observando até que saíssem. Desceu do cavalo e sentou-se sobre as ruínas de um antigo muro. O Museu não se importava que visitantes invadissem as ruínas, mas não tolerava que saíssem delas com algo de valor.
  Eliahu, junto aos cavalos, aproveitando-se da sombra do Zigurate, notou a presença da moça e reconheceu seu uniforme, mas não se importou. Ela apenas fazia seu trabalho. Eles ficaram ali, cada um em seu posto, respeitando-se à distância.

O túnel terminou em um amplo espaço. A lanterna não era mais necessária ali. A luz do sol penetrava pelo cume do Zigurate e chegava até o solo de forma direta, sem nenhum desvio. Dispostos pela parede ao redor, encontravam-se vasos, estatuetas e tabuinhas de barro. Eram tantas que poderiam se igualar as da biblioteca de Nínive.
― Estão vendo isso? - A luz da lanterna de Oto passeava pelos objetos.
― Mas onde está o tesouro? – Avram e Bemji perguntaram ao mesmo tempo, indo até os vasos.
― Está diante de seus olhos, meus amigos. Que mais poderiam querer? Pensem no quanto o museu vai ganhar com essa descoberta!
― O museu não precisa de dinheiro – rosnou Bemji. - O que tem lhe basta.
Sam e Mila se entreolharam preocupados. Não estavam gostando do rumo da conversa.
― E o que esperavam?
― Garantiu-nos que havia um tesouro aqui dentro, Oto! – Bemji passou um lenço pelo rosto suado enquanto falava.
― E não menti. Isso para mim é um tesouro. Pensei que fosse para vocês também.
Avram, descontrolado, puxou um revólver que apontou para Oto, com mãos nervosas. O professor não se mexeu. Tentou tranqüilizar os sobrinhos com o olhar, mas ficou aliviado ao ver que eles já sabiam se controlar diante de situações difíceis.
― Taylor, o arqueólogo, em suas anotações, acreditava que aqui dentro havia um tesouro de verdade. Riquezas! Ouro! - Disse Bemji, referindo-se a John Taylor, primeiro enviado a estudar as ruínas do Zigurate.
― E ele achou um tesouro - Oto respondeu. - Achou exatamente o que acabamos de encontrar. Vestígios! Documentos!
― Mais pedras! O museu está cheio delas em seu porão. Para que precisa de mais? - Avram falou nervosamente.
A mão do homem tremia de forma incontrolável. Sam, que estava posicionado um pouco mais perto de Avram, cogitava a possibilidade de tomar a arma. Ele era um rapaz forte, campeão de atletismo, poderia ter alguma vantagem.
― Nem pense nisso, garoto - Bemji percebeu a intenção.
O gordo também segurava uma arma e a apontava para o rapaz. Mila tomou a frente, temendo pelo irmão.
― Taylor, como vocês, sonhava com riquezas. E, como vocês, ele não fez caso dela quando a descobriu. Estão trilhando o mesmo caminho. – Mila tentava argumentar em prol da razão.
― Não adianta, Mila. Estão escravizados pela ganância.
Oto mantinha-se controlado, apesar do revólver apontado em sua direção.
― Deve existir mais uma porta! Onde está? – o gordo passeava os olhos em volta, transpirando de forma doentia.
― Estamos no meio do Zigurate, Bemji! A única câmara que deve existir é essa na qual nos encontramos. É a mesma estrutura interna de uma pirâmide.
De repente, o chão tremeu por uma fração de segundos. Segundos suficientes para que Oto e os garotos aproveitassem a poeira que caía com as pedras e se atirassem no chão. Eles buscaram refúgio na penumbra, junto à parede, onde a luz do sol não chegava. Avram apontava de um lado para o outro com a respiração ofegante, procurando. Bemji tentava enxergar além da escuridão.
Oto e os garotos mal respiravam. Sam sentiu quando o tio passou-lhe o diário do avô. O rapaz não fez perguntas, apenas o guardou no bolso da jaqueta. Oto apontou para a direita. A atenção dos dois mercenários estava voltada para o outro lado. O professor pegou uma pedra e a jogou do lado oposto. Isso iniciou uma saraivada de balas a esmo. Tio e sobrinhos aproveitaram o barulho ensurdecedor e correram para a porta.
Bemji olhou para trás e viu o reflexo da lanterna do professor.
― Eles estão fugindo! Vamos!
O túnel parecia diferente. Tinha mais curvas e era mais estreito. Eles pararam em uma esquina.
― Acho que tomamos o túnel errado, meninos – Oto falou ofegante.
― O que faremos agora, tio? – Sam tentava raciocinar.
Oto olhou para cima. Duas paredes formavam um túnel estreito que levava para cima, uma espécie de sistema de ventilação, feito talvez para preservar a sala dos tesouros.
― Vocês conseguem se apoiar nas paredes?
― Sim, tio, nós conseguimos fazer isso, mas é muito estreito para o senhor. – disse Mila, com certa hesitação.
Oto pôs a mão no ombro de Mila. A garota era esperta e já havia percebido seu plano.
― Não discutam comigo. Eu quero que subam e tentem ficar lá em cima o máximo que vocês puderem. Eu vou tentar despistá-los. Caso eu não consiga, prossigam sem mim. Esse foi apenas o começo.
― Mas, tio... - Começou Sam, tentando argumentar.
― Sam, nós estamos na pista certa - Oto falou com as mãos sobre os ombros do sobrinho. - Você tem o diário. Se acontecer algo comigo, volte e tente encontrar a pista, entendeu?
Oto deu um beijo na testa de cada um e esperou que subissem. Sam apoiou as costas em uma parede e os pés na outra. Mila o imitou. Eles já haviam feito aulas de circo quando viajaram pela Índia. Oto correu ao ouvir os passos que se aproximavam. Avram e Bemji passaram correndo por baixo dos garotos sem os perceber. Logo depois ouviram cinco tiros serem disparados e souberam o que tinha acontecido. Nenhum dos dois falou nada. Os olhos de Mila ardiam devido ao choro sufocado. Sam respirava fundo para controlar os soluços que teimavam em vir. Ao olhar para cima, ele viu algo novo. Era uma pequena abertura.
― Mila,  você consegue subir mais um pouco?
Ela acompanhou o olhar dele.
― Acho que sim.
Eles se arrastaram com esforço pela parede. Pararam ao ouvir vozes abaixo deles.
― Temos que encontrar os garotos. Eles estão com o diário – falou o trêmulo Avram.
― Eles vão tentar chegar na entrada. Vamos andando.
Mas, antes de sair, Bemji sentiu terra caindo em sua cabeça. Ele parou e olhou para cima e sorriu.
― Ora, Avram, acho que encontramos dois ratinhos presos na parede.
Percebendo o perigo e cheios de adrenalina, os garotos não perderam tempo.
― Agora! - Gritou Sam.
Com toda a força que conseguiram colocar nos braços e ombros eles se atiraram para frente e agarraram a saliência da abertura. Ficaram ambos com as pernas penduradas no vazio.
― Faça-os cair, Avram!
― Como?
― Atire neles!
E Avram começou a atirar a esmo. As balas zuniam pelas paredes, sem contudo acertar o alvo, devido ao espaço estreito e a falta de visualização. Sam conseguiu elevar o corpo o suficiente para entrar na abertura. Uma bala passou raspando pelos cabelos de Mila, que quase se soltou com o susto. O irmão a segurou firme na hora, puxando-a para cima.
― Você está bem? - Ele perguntou preocupado.
― Estou. Vamos sair daqui.
Eles foram seguindo o túnel, arrastando-se para cima até verem a luz do sol. A passagem era estreita. Sam passou primeiro e, para sua surpresa, foi ajudado por mãos firmes do lado de fora. As mesmas mãos ajudaram Mila. Era Eliahu. E ele não estava só. Ao seu lado, uma moça com o emblema do Museu Britânico bordado no bolso da camisa olhava-os com curiosidade. Ela tinha os cabelos em um tom castanho-avermelhado e os olhos meio rasgados e exóticos. Eliahu ofereceu o cantil para os amigos sedentos e cansados pela fuga, enquanto explicava.
― Ouvi tiros. Cheguei a entrar até a bifurcação e ouvi vozes alteradas e mais tiros. Soube o que estava acontecendo. Aqueles dois sempre me pareceram suspeitos. Sabia onde vocês iam sair quando vi o túnel de ventilação e voltei para ajudar. - Eliahu falou aliviado. – Ainda bem que não me enganei.
O guia olhou para a moça ao seu lado e sorriu. Eles estavam quase no topo do Zigurate, sob o sol escaldante do Iraque.
― Dinah é vigilante do deserto. Ela esperava para ver o chefe da expedição. Quando viu que havia algo errado, se propôs a me ajudar.
Sam estendeu a mão para Dinah.
― Obrigado. - o rapaz a olhou com admiração.
― Ainda não estão salvos. Precisamos sair do Zigurate - ela falou, ao apertar a mão dele. – Aqui é uma área aberta e não dá muita vantagem para fugir de armas de fogo.
Eles se levantaram batendo a poeira da roupa.
― E o professor? – Perguntou o guia.
― Eles o mataram, Eliahu – havia amargura na voz de Mila.
― Era o chefe? – Dinah perguntou.
― Sim, ele era o chefe e nosso tio. – Respondeu Mila.
Dinah assentiu um pouco constrangida.
― Bem, vamos sair daqui primeiro. Depois eu quero um relatório completo dessa história.
Os cavalos estavam esperando do outro lado do Zigurate. Eles conseguiram descer e sair antes que Avram e Bemji percebessem. O que foi uma vantagem importante para eles.

O posto de fiscalização consistia de uma barraca bem equipada em um ponto estratégico de um penhasco. Um rapaz de cabelos negros que falava com alguém pelo rádio levantou-se para recebê-los com o olhar confuso.
― Dinah, o que aconteceu?
― É uma longa história, Tor. Acho que vamos precisar de ajuda da polícia.
O rapaz meneou negativamente a cabeça.
― Não vai ser possível. Uma tempestade de areia está se formando e deverá chegar ao cair da tarde.
Sam parecia aflito.
― Tenho que voltar.
― O quê? Ficou maluco? – Dinah e Mila pareceram perguntar ao mesmo tempo.
― A pista está dentro do Zigurate. A tempestade pode soterrar a porta e escondê-la de vez.
Tor olhou para Dinah confuso.
― Que conversa é essa sobre Zigurate?
Os irmãos, após uma troca de olhares, resolveram ser sinceros.
― Estávamos no Zigurate, seguindo algumas pistas deixadas no diário de nosso bisavô – Mila começou a explicar. – Segundo o diário, encontraríamos uma porta de acesso ao seu interior. Essa porta nos levaria a câmara dos tesouros.
― Tesouros? Está falando de que tipo de tesouros? – Perguntou Tor.
― O Zigurate era um templo. Era comum os sacerdotes depositarem as oferendas em uma câmara secreta dentro do santuário. Isso ocorre em quase todas as culturas.
― E esse tesouro...
― Tesouro para arqueólogos - explicou Mila. - Consiste em objetos de culto e outros tipos de oferenda como objetos pessoais, alimentos e a própria história do templo escrita em tabuinhas de barro.
Tor sentou-se novamente de boca aberta.
― E vocês acharam a porta?
― A porta e a câmara. O tesouro estava lá e vai ser soterrado novamente se não agirmos logo! – Sam parecia desesperado.
― Por que você quer voltar lá? – Dinah perguntou com preocupação – O tesouro vale tanto assim para você?
Ele a olhou nos olhos.
― Porque a segunda pista está na câmara. É o que diz o diário. Não tivemos tempo de procurar, infelizmente. E esse foi o último pedido de meu tio – ele abaixou a cabeça ao dizer a última frase.
― Acho perigoso voltar lá, patrão. Aqueles homens vão estar esperando.
― Não, Eliahu. Eles não sabiam onde estava a segunda pista e muito menos que ela existe. Eles acham que se há algo mais, está no diário. Vão tentar nos encontrar para tomá-lo de volta.
Tor olhou no relógio.
― A tempestade só chegará ao cair da tarde. Temos tempo.
― O que quer dizer com “temos”? – Dinah encarou severamente o colega.
― Vou também. – Ele falou convicto.
Dinah se pôs na frente dele com as mãos na cintura.
― Tor, essa não é sua função.
Ele sorriu.
― È a minha vez de patrulhar a região. Esqueceu?
Eliahu também se ofereceu para ir. Dinah e Mila se resignaram a ficar e orar para que tudo desse certo.

Eles, por trás de algumas ruínas, observaram o Zigurate de longe. Não havia sinal de ninguém.
― Eliahu, você acha que é possível entrar pela abertura no teto? Aquela por onde saímos – perguntou Sam.
― Claro.
― Então, mostre-nos o caminho.
Eles seguiram o guia até a saliência que ficava acima do Zigurate. Eles foram subindo por um ângulo oposto ao da porta recém-descoberta. Lá chegando, cada um pulou na sua vez. Sam olhou para o patrulheiro com curiosidade.
― O que o fez querer vir? O tesouro? – Ele não queria acreditar que Tor estivesse ali pelos mesmos motivos de Bemji e Avram.
Tor sorriu.
― Não sou caçador de tesouros, amigo. Minha família é rica, se isso importa. Mas gosto de aventuras. Esse deserto não oferece muitas opções. Não quero perder essa oportunidade de fazer algo diferente.
― Vocês dois são loucos... – Murmurou Eliahu.
Eles riram e o seguiram até a estreita abertura. Sam suspirou. Era uma abertura bastante estreita.
― Foi por aqui que nós saímos?
― Não há erro, patrão. É a única abertura que existe aqui em cima.
Sam respirou fundo e se espremeu para passar pela abertura. Tor o seguiu. Eliahu ficaria de guarda e a espera. Eles precisariam de ajuda para sair.

Mila notou o rosto preocupado de Dinah ao observar o horizonte. A moça mal havia sentado desde que chegaram.
― O que foi? - Mila aproximou-se dela.
― A tempestade parece estar se formando mais rápido do que devia.
― E se isso acontecer?
Dinah a olhou com seriedade.
― Eles vão precisar ser rápidos.

Arrastar-se pelo buraco foi à parte fácil. Quando Tor viu a altura que levava até o chão se assustou.
― Como vamos descer?
― Pela parede.
Tor ficou observando Sam se apoiar quase deitado em cada lado da parede e ir descendo, aproveitando-se de pequenas reentrâncias na parede, como um alpinista.
― Consegue fazer isso?
― Olha, cara, se você faz, eu também faço.
Sam admirou a coragem do patrulheiro. Ele o seguiu com certa dificuldade até o chão e olhou triste para cima. Suas costas ardiam e doíam.
― Vamos subir do mesmo jeito?
― Tem outra idéia?
― Já ouviu falar de corda?
― Podíamos ter pensado nisso antes.
Sam acendeu a lanterna que trazia no bolso e foi andando com cautela até a abertura da câmara. Tor o seguia de perto.
― O que vai acontecer se a tempestade nos alcançar? - Sam perguntou.
― Podemos ser soterrados aqui dentro.
Eles foram seguindo devagar e em silêncio. Não ouviram vozes, e isso era um bom sinal.Tor assobiou ao ver a enorme câmara.
― Assombroso! O que procuramos?
― Uma marca na parede. Pode ser uma escrita, um desenho ou algo parecido.
Eles iniciaram a busca. Sam procurava freneticamente por um lado e Tor observava atentamente cada saliência da rocha.
― Sam, acho que encontrei algo! – Ele falou alto o suficiente para que Sam escutasse.
Quando o rapaz chegou perto do patrulheiro, viu a marca estranha escrita na parede.
― O que isso quer dizer? Não me lembro de ter visto esse símbolo antes.
O símbolo era um quadrado que lembrava um labirinto.
― Pois ele me parece bem familiar - disse Tor, analisando o desenho e franzindo o cenho.
Sam pegou a câmera digital que sempre trazia consigo e tirou uma foto da marca. O celular de Tor vibrou no silencioso. Era Dinah. A ligação estava cheia de estática e logo falharia.
― “Vocês têm que sair desse lugar. A tempestade está começando a se formar!”.
― Certo.
Tor pôs a mão no ombro de Sam.
― Temos que ir, amigo. A tempestade está chegando.
Eles se apressaram para voltar a abertura, mas ouviram vozes. Avram e Bemji estavam vindo daquele lado.
― Vamos sair pela frente, Tor. Não há outro jeito.
Eles correram para a saída sem serem notados e deram com os cavalos carregados de artefatos em sacolas. Sam se revoltou.
― Desgraçados! Mataram meu tio por que não queriam esse tesouro, e agora o estão roubando.
― Então, vamos tomar a frente deles.
― O quê? – Sam perguntou sem entender.
Tor pulou para cima de um dos cavalos.
― Sou patrulheiro, Sam. Esses caras estão roubando. Posso confiscar oficialmente esse tesouro em nome do Museu Britânico.
Sam subiu no outro cavalo e foram em direção da colina. Sam ligou para Eliahu, que continuava esperando-os pela abertura. Ele desceu e os aguardou no caminho. Logo, os três retornavam com sucesso.

Mila desligou o celular com um suspiro e sentou-se sobre uma rocha.
― Não vai conseguir ligar por causa da tempestade. – Dinah lhe ofereceu uma xícara de chá.
― Obrigada – disse Mila, aceitando a xícara.
Dinah sentou-se ao lado dela. Os olhos preocupados vasculhavam o horizonte.
― A vista daqui é panorâmica. - Disse Mila.
― Gosta do deserto? - Dinah perguntou curiosa.
― Gosto da areia, das pedras, do que elas escondem...
― É uma paixão esquisita – Dinah tomou um gole do chá.
― E você? - Mila sorriu para a patrulheira. - Como veio parar aqui?
― Sou de Israel. O meu país costuma recrutar voluntários para trabalhar nos projetos culturais. Principalmente naqueles que se responsabilizam pelos sítios arqueológicos de toda a região. Precisavam de gente para patrulhar e eu precisava do emprego. Os saques se tornaram muito frequentes, e a necessidade de vigilância abriu portas para muita gente. Além do mais, quando se trata de cultura, há uma certa tolerância com relação à raça ou nacionalidade.
― Israel é mesmo um país diferente.
― Como assim?
― Os outros países dessa região não dariam um emprego desses a uma mulher.
― São mulçumanos, na maioria. Em Israel, hoje em dia, uma mulher é tão necessária quanto um homem. Nem todos possuem uma visão ortodoxa do que é ser tradicionalista.
Um vento forte as pegou de surpresa.
― É a tempestade? - Mila perguntou preocupada.
― Ela está anunciando sua chegada.
Mila ficou de pé num salto.
― Veja! São eles!

As moças observavam estupefatas as cargas dos cavalos. Eliahu segurou as rédeas dos animais inquietos.
― Precisamos abrigar esses animais.
― Tem uma espécie de gruta ali atrás, que nós usamos para guardar o equipamento ― disse Tor. ― Venha comigo.
Tor o ajudou a levar os cavalos, enquanto Sam e as garotas levavam a carga para dentro da barraca.
― O que pretendem fazer com isso? ― Perguntou Dinah, ao ver a quantidade de coisas.
― Entregar às autoridades responsáveis ― respondeu Sam. ― Acho que o Museu de Israel e o Museu Nacional do Iraque merecem fazer a partilha, pois há coisas aqui que interessam a ambos.
Mila avaliava a forma da cerâmica. Parecia encantada. Dinah pensava num modo de chamar a atenção de Tor. O que ele pensava estar fazendo? Sam percebeu que a patrulheira não estava a vontade.
― Olhe, Dinah, aqueles caras iam contrabandear isso tudo. Veja as etiquetas prontas para serem colocadas.
Ele mostrou um rolo solto em um dos sacos.
― Na minha opinião, um museu ainda é o lugar mais seguro para se preservar tesouros como este. Não sou ladrão.
Ela pareceu relaxar.
― Desculpe, Sam, mas o meu trabalho é desconfiar de tudo.
Ele riu.
― Está perdoada, considerando a maneira que entramos na vida de vocês.
Ele tirou a câmera do bolso.
― A propósito, achamos a pista. Estava escrita na parede.
Mila aproximou-se para ver a foto ser mostrada no visor da câmera. Uma forma estranha que lembrava um labirinto.
― Que símbolo é esse? Nunca o vi antes.
― Estou fazendo a mesma pergunta desde que o vi. ― Suspirou o irmão.
Dinah sorriu ao ver a fotografia.
― Vocês já o viram, com certeza. Essa é a planta do Palácio de Mari.
Os dois olharam para ela, surpresos.
― Como sabe? – Perguntou Mila.
Dinah deu de ombros e cruzou os braços.
― Já tivemos problemas com turistas perdidos naquelas ruínas enormes antes, então confeccionaram um mapa para ser colocado em cada posto.
Sam caiu sentado no chão. Estava exausto.
― Mari. – Ele murmurou.
Tor e Eliahu chegaram correndo. O patrulheiro foi logo fechando o zíper da barraca.
― A tempestade chegou. – Disse Eliahu.

O vento forte escureceu o tempo e a barraca parecia querer sair voando. Dinah serviu chá para os rapazes. Tor sorriu ao ouvir a revelação da estranha figura.
― Eu disse que já tinha visto aquela figura antes.
― Sam, como pretende encontrar outra pista dentro daquelas ruínas? É como procurar uma agulha no palheiro. São gigantescas! – Dinah parecia curiosa.
Ele retirou o diário que estava no bolso.
― Tenho esperança de que haja alguma indicação aqui. As anotações do meu bisavô são muito complicadas. Algumas parecem estar criptografadas, outras assemelham-se a fórmulas matemáticas, além de diversos mapas, desenhos e anagramas de línguas antigas. Um verdadeiro quebra-cabeças.
Ele passou o diário de mão em mão.
― O que tem naquela caixa? – Eliahu apontou para uma estranha caixa de cobre cuja ponta aparecia de dentro de um dos sacos.
― Caixa? Aquilo é uma caixa? – Mila estava curiosa.
Até então, todos os objetos haviam sido muito bem-dispostos dentro dos sacos, mas com o sacolejar do cavalo, a boca de um deles abriu-se um pouco mais, revelando um objeto curioso. Mila se levantou e pegou o objeto para o abrir, mas foi impedida por Dinah, que deteve sua mão a tempo.
― O que foi? – Ela perguntou, confusa.
Dinah olhava o símbolo em relevo que enfeitava a caixa. Ela passou a mão sobre o desenho e respirou fundo. Um menorah de sete braços. Os irmãos lembraram-se da inscrição na parede que estava ao lado da seta.
― O sinal do Templo. - A voz dela soava com reverência. - Essa caixa deve conter algo sagrado.
Mila e Sam se entreolharam. Dinah não parecia ser uma pessoa religiosa, mas temia alguma coisa.
― Tem medo do que ela pode conter? – Perguntou Sam.
― Pode não parecer, mas eu tenho temor a Deus, Sam.
― E se for algo de importância vital para a construção do Novo Templo?
Ela olhou para o rapaz um pouco hesitante. Aquele era um assunto que inflamava os judeus mais ortodoxos, ligados às profecias antigas.
― Então, acho que não faria mal olhar.
Ele sorriu e fez um sinal para Mila abrir a caixa. A irmã, porém, a passou para Dinah.
― Você é israelense. Acho que tem todo o direito de abrir essa caixa. Ela faz parte da sua história.
Dinah tomou a caixa nas mãos e, após uma prece silenciosa, ergueu a tampa. Dentro dela, bem embrulhado, estava um pano de um branco puro, imaculado. Em cima do pano, uma faixa igualmente branca e cuidadosamente enrolada. Por um momento, Dinah não soube do que se tratava, mas ao olhar a faixa, tudo clareou, e ela se ergueu de um salto.
― Meu Deus!
― O que foi, Dinah? - Mila também ficou de pé. - Sabe o que é isso?
― Sim, eu sei.
Ela olhou nos olhos de Sam.
― É a roupa de baixo usada pelos sacerdotes na época de Moisés. Não é um pano único. Devem ter três peças aí dentro. Uma túnica, um calção e uma faixa.
― Mas o que estaria fazendo naquele lugar? Dentro do Zigurate de Ur! – Mila estava confusa.
― O que seu tio procurava? - Dinah olhou para os irmãos. - Qual era a razão da busca dele?
Mila e Sam trocaram um olhar, e em seguida responderam quase ao mesmo tempo.
― Ele queria encontrar Deus! – Sam completou – Pelo menos provas de sua existência na história.
Dinah sorriu e olhou para Eliahu, que também era israelense. O rapaz também conhecia a história passada de geração em geração. Tor escutava tudo fascinado. Finalmente algo acontecia para tornar aquele deserto agradável! Uma aventura começava a tomar forma.
― A tradição dos anciãos conta uma história curiosa. – Eliahu tomou ares de guia. – O profeta Jeremias, prevendo a destruição do Templo, escondeu a Arca do Concerto e o Altar do Incenso em um lugar desconhecido. Para marcar o lugar para os sacerdotes que fossem reconstruir o Templo, ele espalhou como pistas as diferentes peças de roupa do sacerdote. Segundo a Torah, o livro sagrado, o sacerdote devia estar devidamente vestido ao entrar na presença de Deus.
― Então, os lugares indicam onde as roupas estão? – Tor perguntou curioso.
― Exatamente. O último objeto a ser achado deverá ser o Urim e o Tumim, as pedras mágicas usadas para se comunicar com Deus. Este indicará a localização do esconderijo. – Finalizou o guia.
Sam caminhou de um lado para o outro dentro da barraca.
― Meu tio não sabia disso. Ele esperava encontrar apenas a câmara e a inscrição. A inscrição deveria desvendar o mistério.
Ele abriu o diário do bisavô e sentou-se em silêncio para ler e pensar. Mila pôs a mão no ombro de Dinah. A moça parecia preocupada.
― Você está bem? O quanto isso lhe afeta?
― Até o dia de hoje, isso para mim era apenas lenda. Estórias que os velhos gostam de contar. Não sei explicar o que estou sentindo.
Mila sorriu.
― Sabe, Dinah, os velhos não contam mentiras. Eles são mais verdadeiros do que nós.
Eliahu balançou a cabeça ao ouvir o comentário de Mila.
― É verdade. Eu sempre acreditei nas lendas do meu povo. O deserto para mim é mágico.
Ele tinha paixão na voz.

Quando a tempestade passou já era noite. O céu estrelado oferecia um espetáculo deslumbrante. O celular de Mila vibrou em seu bolso e ela atendeu prontamente, saindo da tenda. Ela suspirou ao ver quem era. Aquela seria uma ligação difícil.
― Alô, Nina?
― “Mila, o que aconteceu? Vi seu número no meu celular e passei o dia inteiro tentando falar com você”.
A voz da prima a fez pensar na notícia triste que deveria dar.
― As linhas foram bloqueadas devido a uma tempestade de areia.
―“E como vão as buscas? Encontraram algo? Meu pai parecia um louco quando saiu daqui”.
― Nós encontramos, Nina. Exatamente como ele falou.
―“O que você tem? Aconteceu alguma coisa?”
Silêncio.
― “Mila, cadê meu pai?”.
Era agora, não havia como adiar a notícia. Mila respirou fundo.
― Ele...está morto, Nina ― Mila fechou os olhos, aguardando a reação da prima.
― “O quê? Que brincadeira é essa?”.
― Não é brincadeira.
Nina demorou a responder. Mila conhecia o temperamento forte da prima. Ela devia estar tentando se controlar, mas também precisava conhecer os fatos.
― “Como aconteceu?” – A voz soou estranhamente calma.
― Ele foi morto pelos caras do museu. Eles queriam ter encontrado um tesouro literal, ficaram bravos e o mataram. Eu e Sam escapamos graças a seu pai.
― “Ele foi assassinado?” ― Havia um tom de incredulidade na voz dela.
― Isso mesmo.
― “Onde vocês estão? Vou mandar um helicóptero buscar vocês”.
― Não, Nina. Nós vamos seguir em frente. Ele nos pediu isso.
― “O que vocês acharam?”
― A câmara no Zigurate, a inscrição, e algo mais que não dá para explicar por telefone. Essa história parece bem maior do que ele pensava.
― “E para onde vão agora?”
― A próxima parada é o Palácio de Mari.
Mila ouviu um suspiro.
― Nina, por que não vai descansar um pouco? Você deve estar muito abalada com a notícia.
― “Parar? Ficar pensando? Não sei se eu tenho estrutura para isso. Mas você tem razão. Isso foi como mergulhar num tsunami. Olhe, mantenha o celular ligado, está bem?”.
― Farei isso.
Quando ela desligou, percebeu que Tor estava ao seu lado.
― Desculpe, não queria ouvir a conversa, mas não pude evitar. É a filha dele?
― Sim, é. Ela é arqueóloga marinha. Está trabalhando em escavações na costa da ilha de Malta. Por isso ela não nos acompanhou.
― Quando vocês vão partir?
― Deixo essa decisão para o Sam. Não sei o que ele vai descobrir naquele diário. Onde está Dinah?
― Ela foi fazer a ronda noturna. Acho que queria ficar sozinha.
― Isso parece ter mexido muito com ela. Por quê?
― Quando o assunto diz respeito ao Templo, sempre mexe muito com o judeu. Além disso, Dinah foi criada por um grupo meio místico, sabe? Não é comum encontrar judeus que ainda levem isso a sério.
― E você, Tor? De onde você é?
Ele riu e cruzou os braços.
― Sou do Brasil.
― Está bem longe de casa!
― Você também.
Tor era divertido e agradável. Foi um dos poucos momentos em que Mila pôde relaxar um pouco.

Sam jogou o diário de lado. Não havia nada ali que lembrasse o Templo, ou sacerdócio. Pelo menos, ele achava que não. Nunca fora muito bom em desvendar enigmas. Será que sem querer haviam descoberto algo novo? Não. O bisavô conhecia os locais. Havia algo oculto que ele não conseguiu enxergar ainda. Levantou-se desanimado com o resultado da busca e foi para fora da tenda. Juntou-se a Tor e Mila que conversavam sentados numa rocha.
― Parece desanimado – Mila preocupou-se com o irmão.
― Estou cansado de pensar, quebrar a cabeça. Não consegui achar nada.
― Talvez ache a resposta no próximo local. - Tor falou.
― Esse é o problema, Tor. O palácio de Mari é enorme. Como vamos achar algo ali, sem indicações?
― Ei, senta aqui e relaxa um pouco. Vocês dois passaram por um inferno hoje.
Sam concordou e sentou-se ao lado da irmã.
― Falei com a Nina. – Disse Mila.
Sam respirou fundo. Havia esquecido da prima.
― E como ela ficou?
― Mal.
Sam apertou a mão da irmã.
― Eu vou em frente, Mila. Vou seguir as pistas como tio Oto faria. Você está comigo?
― Sempre, irmão.
Tor saiu em silêncio e deixou que eles aproveitassem aquele momento em família.

Dinah desmontou e deixou o cavalo livre aos pés de um rochedo. Ali perto, ela podia ver o reflexo de um fogo aceso vindo de uma reentrância na rocha. Ela passou por uma passagem estreita e chegou a uma enorme caverna circular. Um velho de barba branca, semelhante aos antigos profetas de Israel, estava de cócoras tirando a carne assada do fogo.
― O cheiro está bom. ― Ela comentou com um sorriso.
Ele riu.
― O gosto também, filha de Jacó.
Ele a chamava assim desde pequena por causa do seu nome. Dinah era a única mulher citada como filha do patriarca Jacó.
― Preciso de sua ajuda, Abner – ela disse, sentando-se ao lado dele.
― O que este velho eremita pode fazer por você?
― Você lembra do Dr. Jones?
Abner balançou a cabeça com um sorriso divertido.
― Aquele velho louco que fumava cachimbo e procurava a Arca do Concerto?
Dinah sabia que o velho Dr. Jones havia servido de inspiração para um famoso personagem do cinema, principalmente por causa da sua busca pela Arca.
― Ele mesmo. O que mais ele buscava? Você lembra?
Abner tentou se lembrar.
― Acho que ele buscava o próprio Tabernáculo.
― O quê? – Dinah achou que não havia escutado direito.
― É. Ele dizia que Jeremias não escondeu apenas a Arca e o Altar do Incenso, mas todo o Tabernáculo original com suas cortinas, Altar de Bronze, Bacia, Mesa, Candelabro e todo o resto. A Tenda inteirinha!
Dinah ouvia petrificada. Abner a olhou com preocupação.
― Você está pálida! Pegue um pedaço de carne, menina. Não deve estar se alimentando direito.
― Abner, quem podia entrar no Tabernáculo?
― Apenas os sacerdotes. E o sumo-sacerdote era o único a poder entrar no Santo dos Santos, a parte mais sagrada da Tenda. Ele tinha que estar devidamente vestido e ungido para entrar, senão seria fulminado pela ira de Deus.
Dinah o encarou de boca aberta. Abner deu uma grande mordida na carne.
― E ele não podia deixar de levar o incenso. - O velho falou mastigando a carne macia.
― Óleo, incenso...Tudo isso, então, eram pré-requisitos para entrar no Tabernáculo?
― Sim – respondeu o velho, orgulhoso. – O Tabernáculo era um lugar santo. Era nele que Deus vinha para falar com Moisés.
― Um lugar de encontro com Deus? Com a Divindade?
― Isso mesmo. Mas, por que você quer saber isso tudo?
Ela sorriu e começou a comer a carne que ele lhe ofereceu.
― Curiosidade.
Abner era um velho esperto demais para acreditar que era apenas curiosidade.
― Como quiser, mas seja como for, tenha cuidado. É preciso cuidado quando se trata de mexer com o Sagrado.

Naquela mesma noite, muito longe dali, uma jovem caminhava sozinha pela areia da praia, na costa da ilha de Malta. A água lhe banhava os pés e o vento já havia secado as lágrimas do seu rosto. Ela pesava as últimas lembranças que tinha do pai. Uma discussão inútil marcou sua última conversa. Nina sentia o peso da decisão que acabara de tomar. Seria uma mudança brusca, mas ela tinha um dever a cumprir. Algo que ficara devendo ao pai. Respirou fundo e deu meia volta.

Lee e Amanda assustaram-se ao chegar na barraca que dividiam com Nina e encontrá-la fazendo as malas.
― Aonde vai? ― Perguntou Lee.
― Para Tell-Hariri, a antiga Mari. ― Ela respondeu sem levantar a vista.
― O que esse lugar tem a ver com nosso trabalho aqui? – Amanda estava confusa. ― Fica na Síria!
― Não tem nada a ver, Amanda. É um assunto pessoal. Eu tenho que ir.
Amanda ignorou o conjunto de arco e flecha já empacotado em uma sacola a parte. Nina era uma exímia atiradora e já havia ganhado vários campeonatos apenas por esporte. Por que ela os estaria levando?
― Que assunto tão importante tiraria você do meio de uma escavação? – Lee não conseguia compreender a amiga.
Nina suspirou e falou sem levantar a vista.
― Meu pai foi assassinado. ― Ela agora encarava os dois.
Ambos sentaram-se na cama de boca aberta.
― Ele perseguia algo que não era apenas um sonho. Era algo muito importante. Algo que ele desejou encontrar a vida inteira. Eu não o acompanhei, mas posso continuar seu trabalho. Devo isso a ele.
Lee e Amanda se entreolharam.
― Bem, e quando nós vamos? ― Amanda perguntou.
Nina olhou de um para o outro, parando de fazer as malas.
― Como assim?
Lee sorriu.
― Ainda somos uma equipe, não somos?
Nina tentou ser firme.
― Lee, isso é pessoal.
― É por isso que nós vamos com você. – Amanda cruzou os braços decidida.
Nina sorriu.
― Vocês são loucos!
Sem responder, eles pegaram suas malas e começaram a arrumar.

Quando Dinah voltou da ronda, encontrou Sam e Mila ainda sentados na rocha. Ela sentou ao lado deles e começou a relatar o que Abner lhe havia dito. Sam e Mila pareciam ter adquirido um brilho novo no olhar.
― O Tabernáculo! ― Sam ficou em pé. ― Inacreditável!
― Também achei, mas confio em Abner. Ele não um velho louco, como muitos parecem pensar.
Mila cruzou os braços, curiosa.
― Como o conheceu?
― Ele era um dos anciões do meu kibutz. Um dia ele se revoltou acusando os companheiros de só visarem bens materiais. Ainda lembro aquele dia! Ele ficou igualzinho aos profetas da Torah. Fugiu para o deserto gritando imprecações e foi dado como louco. Eu gostava de Abner e fui atrás dele. Ele me consolou quando perdi meus pais. Ele não havia ficado louco. Ele apenas tinha muito zelo pelas coisas de Deus.
Sam segurou a mão dela. Aquilo a surpreendeu, fazendo-lhe corar levemente.
― Como perdeu seus pais?
Ela hesitou antes de responder.
― Um homem-bomba explodiu o estacionamento de um supermercado. Meus pais estavam lá na hora. Uma fatalidade, foi o que disseram.
Sam e Mila ficaram chocados. Dinah deu um sorriso triste.
― Está tudo bem. Faz muito tempo... E, acreditem, muitas meninas em Israel têm uma história parecida.
Sam levantou-se e andou passando a mão pelo cabelo. Mila acompanhava os passos do irmão com um olhar indefinível.
― Então, em Mari acharemos a túnica bordada. A mais bela vestimenta do sacerdote.
Dinah também se levantou.
― Mas de que adiantará encontrar toda a roupa? Apenas o sumo-sacerdote, da casa de Levi, poderia entrar no Tabernáculo. Essa era a lei.
Mila e Sam sabiam muito bem o que o Tabernáculo representava. A Arqueologia Bíblica era o seu ramo. O simbolismo da Tenda fora criado visando mostrar um ato de peregrinação em duas direções. O caminho de Deus até o homem e do homem até Deus. Mas para Dinah, que fora criada por um grupo que seguia a lei antiga, seria difícil compreender isso.
― Bem, primeiro acharemos as roupas. ― Disse o rapaz. ― Pensaremos no resto depois.
Dinah olhou de um para o outro.
― Eu também vou, e acredito que Tor e Eliahu vão dizer o mesmo.
― E o trabalho de vocês aqui no posto? ― Mila perguntou, sem se sentir surpresa pela decisão dela.
― Somos voluntários. Temos o direito de sair e voltar na hora que quisermos.


Avram e Bemji aguardavam a chegada do trem na estação lotada de Basra. Bemji, como sempre, enxugava o suor do rosto com o inseparável lenço, enquanto Avram fumava nervosamente e andava de um lado a outro da plataforma.
Quando o trem chegou e os passageiros começaram a descer, eles reconheceram de imediato o velho de barba branca e terno cinzento. O olhar arrogante passeou pela plataforma até se deter na direção deles. Com passadas largas, o velho robusto parou no meio do caminho.
Avram e Bemji baixaram as cabeças e foram recebê-lo.
            ― Dom Alessandro Macchio, é realmente uma honra... – Começou Bemji.
― Sem apelação, seu inútil! Você e esse imbecil que chama de parceiro, são uma grande farsa!
― Mas nem tudo está perdido, senhor! ― Bemji tentava manter a calma. ― Tudo o que precisamos fazer é achar aqueles garotos e pegar o diário de volta.
― Nina Klein está vindo para cá. ― As palavras foram ditas pausadamente.
            Os dois comparsas se olharam com cara de espanto.
            ― Ela não estava em Malta? – Perguntou Avram.
― Estava, até o momento em que recebeu a notícia da morte do pai!
            Dom Alessandro deu um longo suspiro.
            ― Não era necessário haver mortes.
― O professor puxou a arma primeiro. – Mentiu Bemji.
― Isso não importa mais! Levem-me para um hotel. Esperarei vocês esta noite. Temos que formular novos planos. Nina não é nenhuma tola.

            O avião não era de primeira classe, mas foi o melhor que Nina conseguiu. Da janela ela podia ver o deserto lá embaixo. Areia e mais areia. Era diferente do seu mundo azul. Ela gostava de água, e causava-lhe um certo desconforto saber que ia ter que penetrar naquela região seca, onde a água era uma raridade. O desconforto chegava a ser uma fobia. Na verdade, era uma fobia. Ela sentiu o toque da mão de Lee. Ele havia notado sua tensão.
            ― Também podemos encontrar água no deserto.
            Ele tinha a capacidade de saber o que ela estava pensando.
            ― Será suficiente para cobrir meus joelhos? ― Ela respondeu com um sorriso.
― Foi por medo que não quis acompanhar seu pai?
            Ela pensou um pouco na pergunta inesperada e ousada. Lee era objetivo, como todo oriental, e não fazia rodeios para entrar em um assunto.
            ― Não sei, Lee. Acho que esse medo me acompanha desde criança, e meu pai sabia disso. O trabalho em Malta foi arranjado por ele. Acho que não me queria por perto.
― Ele não queria encrencas, isso sim!
            Ela quis parecer ofendida.
            ― Está dizendo que sou encrenqueira?
― Talvez um pouquinho. Não negue!
― Não vou negar. Apenas não gosto do sentido da palavra.
― E qual seria mais conveniente?
― Impulsiva. Curiosa. Insistente...
― Encrenqueira. ― Ele soletrava a palavra propositalmente.
― Desisto de argumentar com você, seu chinês estúpido! – Disse ela brincando.
            Ele calou-se, satisfeito por ver que a tensão dela havia diminuído. Cruzou os braços e se estirou na poltrona imitando Amanda, que dormia tranqüilamente desde que o avião levantara vôo. Os ocidentais eram estranhos, ele pensou. Cada um reagia de um modo diferente a uma mesma situação.

Em Basra, Sam, Eliahu e Tor foram fazer as compras necessárias para a longa jornada que teriam. Dinah e Mila ajudaram com a lista, mas preferiram ficar no posto fazendo outros preparativos. O mercado estava cheio e variado, como era comum no oriente. Eliahu era um ótimo comerciante e sabia barganhar. Conseguiram muito do equipamento com descontos significativos. Tor olhou o relógio.
            ― Vocês não estão com fome?
― Agora que você falou... – Sam sentiu o estômago roncar.
Ele lembrou-se de que não fazia uma refeição decente há algum tempo.
― Eu conheço um lugar barato e discreto na Rua Estreita. ― Disse Eliahu.
― Eliahu, eu não me importo com a largura da rua, contanto que a comida seja boa. – Sam deu um tapinha nas costas do amigo.

Avram viu os três rapazes atravessarem a rua em direção a Rua Estreita. Reconheceu Sam e Eliahu, mas quem seria o rapaz de cabelos negros? Ele entrou na loja de onde eles acabaram de sair. O homem do balcão lia um jornal, e levantou o olhar aborrecido ao homem pálido e assustado que entrava. Estrangeiros!
            ― Com licença... Eu pensei ter visto o filho de um grande amigo meu saindo daqui, agorinha mesmo. Ele falou onde estava hospedado?
― Eu não costumo fazer esse tipo de pergunta aos meus clientes. ― O homem respondeu sem tirar os olhos do jornal.
― Claro, claro. Eu me expressei mal. Será que pode dar alguma dica para encontrá-lo? ― Avram depositou algumas notas em cima do balcão.
            O homem respirou fundo e pegou as notas.
            ― Tell-Hariri. – Ele resmungou a resposta.
― Tell... – Quando Avram percebeu o que significava o nome, ficou eufórico. – Mari! Muito obrigado, moço.
            E saiu correndo para dar a notícia a Bemji.

Eles partiram nas primeiras horas da manhã. Um cavalo para cada um e mais dois camelos para levar a carga. Seria o suficiente. O sol escaldante não os intimidava. O cantil só ia à boca em caso de sede insuportável. Experientes, eles sabiam da importância da economia da água.
― Fale-me sobre Mari – Tor falou emparelhando seu cavalo com o de Mila.
Ela gostou da pergunta de Tor, pois a mudança de assunto a faria relaxar os nervos.
― Era um grande império sumério. Cidades como Ur faziam parte do seu domínio. Era um povo pacífico e bastante antigo. Não existem relatos de guerra. Os reis de Mari viviam muitos anos.
― Como os homens da Bíblia?
― Isso mesmo. Sua antiguidade remonta à era pré-diluviana.
― Então, Mari tem muita história para contar!
Mila sorriu. Tor tinha um interesse autêntico, e aquilo tornava a conversa bastante agradável.
Mais atrás, Sam e Dinah também vinham emparelhados.
― Parece preocupada. ― Ele falou, notando o silêncio dela.
― Você tem idéia da dimensão daquele palácio?
― Na verdade, nunca estive lá. – Ele parecia encabulado. – O que conheço é só teoria.
Ela o olhou com espanto. Um arqueólogo bíblico que nunca tinha estado em Mari!
― Sam, apenas sobrevoando a área é possível se ter uma idéia do tamanho da construção. Podemos levar meses nessa busca. Talvez até anos...
Ele riu.
― O que foi? – Ela parecia ofendida. – Eu disse alguma piada?
― Já ouviu falar de pistas, Dinah?
― Você descobriu alguma pista?
― Lembra da caixa que estava com a roupa branca?
― Claro. É por causa dela que estamos aqui.
― Bem, o que exatamente pode lembrar?
Ela suspirou.
― Que tal você dizer o que exatamente eu tenho que lembrar?
― Algum desenho, a cor...
Ela fechou os olhos e pensou, tentando visualizar a caixa.
― Álef! Havia um Álef na tampa, abaixo do menorah.
― Isso mesmo. A primeira letra do alfabeto hebraico. Eu estive observando o formato dessa letra e percebi que os túneis que correm por baixo do Zigurate possuem esse formato.
― Isso quer dizer que teremos que encontrar um Bêt na planta do palácio de Mari? ― Ela falou em tom de brincadeira.
Ele lhe passou o diário do tio.
― Não precisamos ter esse trabalho. Está tudo marcado.
Na página aberta, Dinah viu um Bêt perfeito, a segunda letra do alfabeto hebraico, formado bem no centro do palácio. Oto Klein havia descoberto a pista e sabia exatamente para onde ir. Sam havia conseguido resolver aquele enigma.
― Onde você acha que isso vai dar? – Ele perguntou.
Ela estudou o mapa com atenção.
― Na sala do trono. Ficava contígua à sala da deusa. Geralmente havia fossos nessas salas, onde riquezas eram guardadas.
Nesse momento, Eliahu, que ia na frente, levantou a mão.
― Vejo um oásis. Acho que é hora de descansarmos um pouco.
Todos concordaram.


Janaya passou a mão pela testa suada e ofereceu um copo de limonada para o irmão, Max. O rapaz estava de cócoras, verificando o “corpo” do balão e se certificando de que estava pronto para outra viagem. Ele aceitou a limonada com um sorriso. Em Jerusalém fazia um calor insuportável.
― Mais duas viagens grandes e teremos dinheiro para voltar para casa. - Ele falou com um suspiro cansado.
― Sério? Max, essa é uma grande notícia!
Ele, no entanto, olhou desanimado para a rua do mercado que se estendia à sua frente.
― O difícil será os turistas aparecerem. Essa é uma época quente. As pessoas estão mais interessadas em ir para o Mediterrâneo do que conhecer a região do Mar Morto.
Ela sentou-se ao lado dele e ficaram bebendo em silêncio.
― Esse balão é seu?
Max olhou para cima e viu uma moça de longos cabelos castanhos, acompanhada por um chinês.
― Sim. Está querendo fazer uma viagem?
― Uma grande viagem. – Disse ela sorrindo.
Janaya e Max se entreolharam e ficaram em pé num pulo só.
― Estamos às suas ordens! Para onde quer ir? ― Ele perguntou.
― Mari.
― Mari? ― Max coçou a cabeça. ― É bem longe daqui. A Síria está fora de nossa rota.
― Quanto vai custar? – Nina perguntou sem rodeios.
Max deu o preço combinado para uma viagem grande. Janaya orou silenciosamente, com medo de que a moça desistisse. Ela, porém, puxou a carteira e deu um maço de notas para o irmão. Dinheiro vivo.
― Eu prefiro receber quando voltarmos. – Ele disse, levantando as mãos.
A moça, entretanto, insistiu para que ele pegasse o dinheiro.
― Aí tem a quantia que me pediu. Pagarei o dobro. A outra parte quando voltarmos.
Max a olhou desconfiado.
― Por que isso?
― Além de a viagem ser longa, pode oferecer algum risco. Se não aceitar, terei que procurar outra maneira de chegar lá.
Ela deu uma olhada no balão em forma de barco e sorriu.
― Embora seu balão seja perfeito.
Janaya pediu licença e puxou Max para um canto.
― Max, não vamos ter outra chance!
― Pode haver perigos... Ouviu o que ela disse.
― Perigos estão por toda parte nessa terra, meu irmão!
― Está bem. – Ele disse após um suspiro.
A moça, que falava com o chinês, voltou-se ansiosa para ele.
― E então? – Ela perguntou arqueando a sobrancelha.
― Aceitamos. Quando pretende ir?
― O mais rápido possível.
― Gosto de viajar a noite. É mais tranqüilo. Vamos passar por fronteiras perigosas.
Nina sorriu.
― Ótimo. Estaremos aqui às oito horas, então.
― Serão apenas vocês dois?
― Somos três. Nossa amiga foi comprar algum alimento para viagem – respondeu Lee.
― Três está ótimo. Comigo e Janaya ficam cinco. Peso ideal. Espero vocês às oito horas.
Nina observou que o balão era grande o suficiente para suportar muito mais. Ela sabia que talvez tivessem passageiros extras na volta, mas guardou essa informação para si.